“O que não está no Google, não está no mundo”. Assim sendo, vou transcrever, do papel, um trecho da tradução feita por Carlos García Gual do poema épico Shahnamé, escrito pelo persa Firdusi (934-1020).  Nas línguas européias mais conhecidas – afora o alemão, que não procurei, não existia na web, até agora.  Sinto-me como aqueles tipos de Fahrenheit 451.

 

O fragmento mostra a cena em que Alexandre atinge os confins do mundo, na Índia, e ouve um vaticínio das Árvores que falam.

 

“ …( Alejandro) reiteró las ásperas siendas del desierto,

ensimismado tras el absorto guía y ante sus calladas tropas.

Llegaran a un nuevo poblado, y alegróse de escuchar nuevas voces humanas.

Era un ameno lugar, tierra de deleite.

La ciudad se expandía com el sonreír de sus amplios jardines,

y la gente estaba en fiestas por el recién llegado de improviso.

La gente, sobre alfombras bordadas com piedras preciosas, le aclamaba

a su paso: “Bienvenido, rey Alejandro! Aquí entre nosotros

jamás hubo ni soldados ni caudillos tiránicos, nuestra ciudad no conoce soberanos, ni gente de armas.

Mas ya que hasta nosotros viniste de tierras lejanas, con nosotros que somos felices, sé feliz también, oh rey Alejandro!”

Diluyóse la fatiga del rey, disolvióse su pena.

“Y que maravilla hay por aquí, que yo corra a divertir nuestro ánimo?”

“Invicto señor – le responden – , soberano de alados designios,

hay por estos lugares um portento cual nunca se viera en el mundo,

que no lo alcanza la pompa de los reyes ni el desdén del mendigo lo ignora.

Tal portento es un árbol, un árbol del Destino,

que surge del cruce de dos troncos.

Muchas ramas tiene, y espeso follaje lo cubre de flores y aromas,

con colores suaves y un aspecto muy dulce y muy grato.

Pero no es ésa su magia. Su magia es que conoce la palabra.

Cuando desciende la noche y se adensan oscuras las sombras,

habla el tronco que es hembra, y al alba de casta blancura,

habla el tronco que es macho, con voz más que el aurora clara.”

Y el rey, que ya em Grecia conoció la fascinación de lo raro,

corre raudo hasta las frondas, curioso del nuevo portento.

Antes, con todo, preguntó a los felices: “Y más allá del árbol

sagrado, qué más hay mágico que aún me reclame y aguarde?”

“Oh, señor, más allá de ese árbol no hay nada.

No hay lugar a que vuelvas tu paso ni adonde dirigir la mirada.

Incluso tu empeño, monarca de fogosos designios,

más allá de ese árbol no tiene sentido.”

 

Así dijeron. Él avanzó hacia el árbol extraño. Sobre el terreno

vio pieles humeantes que sobre la tierra ardiente se agitaban.

Sólo de carne ferina se nutre quien adora esse árbol antiguo.

Más tarde, avanzando el día, sonaron las frondas parlantes del macho,

y uma voz oscura se infiltró en oído turbado del rey.

“Qué dice, dime, la planta?” – preguntó a su fiel guía.

“Qué habla, que la sangre toda me arremolina sobre mi corazón?”

“Oh,, por qué vas surcando – repuso – los perdidos horizontes del mundo?

Oh, por qué la   amplia tierra recorres dando espaldas a la suerte,

que en tu patría te habría sido tan bella? Dos veces siete

son los años que a ti, temerario, te há sido concedido reinar.

El día fatídico se acerca, y cualquier cosa amada,

todo lo que te fue querido, se desgaja de ti y tu trono quedará huérfano de gloria.”

Lágrimas rojas llora el rey Alejandro oyendo esa voz.

Se apiada de él su buén guía. Triste guarda en su alma

el secreto feroz y aguarda la noche, piadoso hacia el ansia real.

Vino la noche y hablaron suaves las hojas com voz de mujer sometida:

“Oh, por qué la amplia tierra entristeces con cruel son de armas?

Por qué te torturas recorriendo los vastos senderos del mundo,

y a otros acarrea daños y ofensas, anhelando continuos prodigios?

Ya no largo tiempo este mundo sufrido será tu morada,

y bueno será que te aprestes aprisa a partirte de él,

antes que de la luz del día se apague el amor en tus ojos.”

… “Oh, guía mio, cortés y avezado,

pregúntale pronto: “Volveré a ver

Grecia, veré aún a mi madre?”

“Recibe tu mensaje y regresa” – respondió la voz de la fronda

femenina y nocturna. “Tu no verás de nuevo ni a tu madre ni otros rostros queridos,

tu no verás de nuevo las muchachas de Grecia de púdica alegría.

Vendrá la muerte y tendrá un rostro extranjero.

Ya está caducando tu reino.”

 

Cual traspasado de espada se vuelve Alejandro hacia el valle.

Y ve a la gente que a rendirle honores se amontona. “

 

Decerto você percebeu erros de ortografia, sem falar na pontuação – que vêm de minha pouca familiaridade com o funcionamento do Word.

 

Agora sim, você pode usar a internet – pra comprar o livro. Se eu não  tivesse esse texto – e o comprei nos anos 80, por curiosidade, dentro de uma coletânea de conferências sobre literatura fantástica -  nem saberia disso e de nada me serviria o abismo das estantes da Amazon.

 

 

a ascensão dos idiotas

novembro 13, 2009

Um professor de Direito, ao que me parece conhecedor do que ensina, queixa-se da Wikipedia em um grupo de discussões. A história que narra é esta:

Tendo garimpado uma incompreensível lacuna nesse insuperável edifício da erudição, tratou de saná-la com um artigo esclarecedor e fundado em autoridades do Direito Romano. Orgulhoso por dar uma gota ao oceano, no dia seguinte foi conferir o texto publicado. Tinha sido apagado. Enviou-o novamente. Nada. Invocou os administradores. E estes lhe responderam que não havia fundamento suficiente naquilo para que pudesse figurar numa enciclopedia que faz sombra sobre a Britannica.  Perplexo, o professor replicou que as fontes estavam no artigo e que não eram desconhecidas nem suspeitas.  A sumidade provocou-o: então indique o site onde esse troço está!

O homem varreu o Google e não encontrou nada. Realmente, não havia link a indicar mas… está nos livros, e não são livros quaisquer. O administrador apresentou-o a um novo postulado jurídico:

- O que não está no Google não está no mundo.

Chegará, e logo, o dia em que alguém trepará num pedestal de estátua e, arrancando a gravata num transe desvairado, urrará em triunfo ao mundo e aos céus:

- Eu sou um analfabeto! Eu sou um analfabeto!! – e a multidão carregará o novo santo.

…a beleza salvará o mundo…” F. Dostoievsky

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
“For beauty,” I replied.
“And I for truth – the two are one;
We brethren are,” he said.

And so, as kinsmen met a-night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names.

(E. Dickinson)

O Attic shape!  Fair attitude! with brede
Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
When old age shall this generation waste,
Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
“Beauty is truth, truth beauty,” – that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.

(J. Keats – ultima estrofe de Ode a uma Urna Grega)

Não vivemos sob a Lei, mas sob a Graça” (Paulo)

A arte e a geometria são faces de uma só e a mesma coisa.  Simetria, razão, proporção, harmonia, rigor: verdade, beleza e amor são os seus outros nomes. Revelar é criar”

(Imaginária )

o estrangeiro

novembro 11, 2009

L’étranger ( O Estrangeiro)

-   Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis ? ton père, ta mère, ta sœur ou ton frère ?

-    A quem mais amas, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?

-     Je n’ai ni père, ni mère, ni sœur, ni frère.

-     Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

-     Tes amis ?

-     Teus amigos?

-     Vous vous servez là d’une parole dont le sens m’est resté jusqu’à ce jour inconnu.

-    Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.

-     Ta patrie ?

-    Tua pátria?
-      J’ignore sous quelle latitude elle est située.

-     Ignoro em que latitude está situada.

-      La beauté ?

-     A beleza?
-      Je l’aimerais volontiers, déesse et immortelle.

-     Gostaria de amá-la, deusa e imortal.
-      L’or ?

-     O ouro?
-      Je le hais comme vous haïssez Dieu.

-      Detesto-o como detestais a Deus.
-      Eh ! qu’aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?

-      Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
-      J’aime les nuages… les nuages qui passent… là-bas… là-bas… les merveilleux nuages !

-  Amo as nuvens… as nuvens que passam… longe… lá muito longe… as maravilhosas nuvens!

(Charles Baudelaire, in  Petits Poèmes en Prose ou Le Spleen de Paris)

Tradução de Aurélio Buarque de Holanda

o homem de montparnasse

novembro 11, 2009


Não sou apenas eu quem recorda a morte do autor das Flores do Mal. Há alguns anos – há vários anos, na verdade – li, numa edição de domingo de um jornal brasileiro, uma notícia curiosa sobre um homem que, todos os anos, podia ser visto aos pés do túmulo do poeta no último dia de agosto, e que à pedra entregava uma garrafa de conhaque, pela metade.
Imagino a sombra desse homem… vejo-o mal protegido por um sobretudo roto, os cabelos desalinhados pelo vento do crepúsculo noturno; a barba esquecida na face, os olhos, os olhos também. Comigo está essa imagem há mais de quinze anos e já a enxerguei como fotografia, como carvão,  como óleo, como água-forte, e sob varias perspectivas. Já a vi em filme também, sobre mais de um fundo musical.

 

O homem de Montparnasse, depondo a garrafa pela metade sobre a pedra pálida, em gesto eternamente repetido, continua comigo.
Mas agora ele me veio de outro modo. Descobri que sempre fôra um senhor bem composto, talvez servidor estatal ou regular funcionário de uma grande corporação, de fala e gestos contidos, que talvez haja escrito e traga esquecido em qualquer gaveta,  ou  talvez tenha apenas sonhado com versos que não ousou lançar ao papel, em sua mocidade, e que sem tocar nesse assunto, nas reuniões familiares de domingo, toma um único cálice de conhaque, enquanto parece ouvir o que lhe dizem, provavelmente distraído. E que não diz a ninguém o que faz no final da tarde de 31 de agosto.

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Túmulo de Charles Baudelaire, por R. J. Dent

aliança

novembro 5, 2009

von Paulus

Ontem, à falta de um bom desenho ou um filme de medo, achei de assistir o History Channel. Não chego a perceber o sentido desse nome, mas eis que variaram, mostrando a medonha batalha de Stalingrado. Verdade que nos negaram o trágico, o patético, o sublime, o grotesco, o tétrico, o heróico, enfim, alguns aspectos da guerra, revelando um jogo de tabuleiro entre dois molecões de farda, Vassili Chuikiov e Friedrich von Paulus, no papel de nazista de monóculo. Aliás, minto (João Minhoca!): não tinha monóculo, como você pode ver.
Você conhece o caso: os alemães, muito superiores, botaram a cidade abaixo enquanto os russos resistiam nos escombros e nos esgotos, a um passo de perder tudo. Enquanto isso, Stálin, só na moita, com o bigodão brilhando de maldade calculada e ajuntando tanque e a meninada do outro lado do rio. Veio um inverno de matar urso e aí dá-lhe Exército Vermelho, mandando foguete nos arianos. De deixar os olhos rasos deste ex-trotskista a cena, nebulosa em castanho, do rapaz metendo de volta a bandeira vermelha no alto de um prédio. Se tocassem Katiusha, aí que tombaria mesmo a envergonhada lágrima, mas escapei (respeito minhas crenças de juventude: a paixão de um só adolescente pode varrer o mundo).

A derrota era absoluta para von Paulus. Se na vitória, um homem se perde de si, em meio ao foguetório dos aplausos, começando a ser um “todo mundo” qualquer, na derrota, ainda mais na absoluta, ele retorna a si próprio, só ele mesmo e mais nada. Fica nu, sem farda, sem banda, sem medalha.

- Ich bin laskäten! – admitiu para si o von.

Ora, sabendo que Paulus se renderia e que seria retumbante a vergonha, Hitler jogou esta: promoveu-o a marechal-de-campo. Marechal alemão nenhum, quanto mais de-campo, jamais havia se rendido e Paulus daria na própria cabeça seu último tiro. Entanto, recebendo a notícia de sua promoção a defunto, Friedrich mentalmente respondeu (em alemão):

- Tó! –e avisou aos russos que o jogo tinha acabado. Pensei: Pô, von, apesar de marechal, você até que não era besta.

Mas era apenas isto o que eu queria dizer: antes da rendição, temendo ser morto pelos comunistas, Paulus despachou uma última carta. Não era para Hitler nem para nenhum outro militar ou comando. Era pra Elena, sua mulher há quarenta anos. Haviam se casado em 1912, dois anos antes do tenente Paulus quase perdê-la pela primeira vez. Ele se despedia, agora, com apenas uma linha – e uma só linha pode ser tudo! Fossem quais fossem suas palavras, elas sempre diriam uma e a mesma coisa, muito acima das letras e das vírgulas. Em branco que fosse o papel, ainda palavras invisíveis falariam a verdade. No envelope foi também sua aliança. Veja: o homem ia ser fuzilado, enforcado, esquartejado. E estava com o pensamento em sua mulher e olhando sua aliança e a marca no dedo, nu de aliança, com a cabeça num mundo vivo e perdido. Os russos deixaram-no viver.

trópicos

novembro 4, 2009

Coisa deliciosa é rever os livros que conhecemos na mocidade! Não apenas a leitura pode se tornar o avesso da primeira, como aquelas notas com que completamos ou em que divergimos do autor são agora motivo de sorriso, alguma vergonha ou de secreto orgulho. Ontem estava relendo Significado nas Artes Visuais, de Erwin Panofsky. A abertura (a que não dei importância, aos vinte anos) é esta, na tradução de Maria Kneese e J. Guinsburg:
“ Nove dias antes de sua morte, Emmanuel Kant recebeu a visita de seu médico. Velho, doente e quase cego, levantou-se da cadeira e ficou em pé, tremendo de fraqueza e murmurando palavras ininteligíveis. Finalmente, seu fiel acompanhante compreendeu que ele não se sentaria antes que sua visita o fizesse. Este assim fez e só então Kant deixou-se levar para sua cadeira e, depois de recobrar um pouco as forças, disse: “Das Gefühl für Humanität, hat mich noch nicht verlassen” – “O senso de humanidade ainda
não me deixou.” Os dois comoveram-se até as lágrimas. Pois embora a palavra Humanität apresentasse, no século XVIII, um significado quase igual a polidez ou civilidade, tinha, para Kant, uma significação muito mais profunda, que as circunstâncias do momento serviram para enfatizar: a trágica e orgulhosa consciência no homem de princípios por ele mesmo aprovados e auto-impostos, contrastando com sua total sujeição à morte, à decadência, e a tudo o que implica o termo “mortalidade”.

Minha mãe, quando sua própria doença dava-lhe férias, costumava recordar um caso da época da faculdade. Não compreendíamos bem (tendo eu uns oito anos e Luzia, dez), mas julgávamos entender.
Seus professores, dizia ela, eram verdadeiros demônios da soberba, do arbítrio, da afetação. O próprio Dorian Gray não lhes faria sombra. Talvez, saindo dali, fossem se avistar com um daqueles monstros de Sade e tomariam cafezinho com eles, cada qual contando vantagem. Pois bem; um dos monstros conhecera ,em viagem, Hans Kelsen e narrara seu encontro aos alunos, num absurdo instante de simpatia.

- Conheci, em pessoa, o grande Kelsen! – anunciara o capeta, dando a entender que lá vinha a terrível narrativa.

Na saída de uma conferência, agarrara o braço do mestre e confessara sua admiração pelo autor d’A Teoria Pura do Direito, em ato de reverência a uma patente superior. A obra do austríaco torturava estudantes pelo mundo todo. Mas o figurão do flagelo sorriu e conversou com o brasileiro. Pouco depois, como tivessem que ir, convidou-o a jantar em sua casa.
Jantar com Kelsen! A apoteose de uma carreira!

À hora marcada, o professor bateu à porta do apartamento. Vinha com seu melhor terno, sua melhor e mais reluzente gravata, como reluzentes eram os sapatos e os cabelos gomalinados e repartidos com apuro de geômetra. A própria mulher do monstro abriu a porta, não um mordomo ou uma governanta: uma honra a mais, que ele agradeceu imediatamente. Dona Kelsen sorriu e não comentou nada, pedindo que se sentasse. Ainda que relativamente simples, era em todo caso uma senhora elegante. O próprio apartamento, ele via agora, era também mais simples do que elegante e não propriamente suntuoso, como se podia esperar do castelo de Kelsen. Depois da conversa rotineira com que se recebe alguém, o assunto murchou. Como notasse que o homem olhava à volta, buscando algum sinal do Grande Kelsen, ela convidou-o a ir à cozinha, onde se fazia a sopa. Meio perplexo, o brasileiro a seguiu. Ele próprio, em sua narrativa aos alunos, admitiu que em sua casa não entrava na cozinha nem pra beber água, pois tinha quem fizesse isso por ele( eu quis dizer: tinha quem lhe trouxesse água). No entanto, eis agora o Grande em mangas de camisa e com o mesmo sorriso, girando uma colher na panela em que a sopa fervia. Abraçou-o só com um braço e ali a conversa continuou. O homem não torturava ninguém por gosto.

Bem, tudo isso talvez tenha algo a ver com a notícia que interrompeu minha leitura: Claude Lévi-Strauss havia se ido. Grande Lévi-Strauss, monumento do século XX. Tão grande quanto Hans Kelsen.

“- Minto.”

novembro 2, 2009

Ontem à tarde fui à cidade comprar queijo, manteiga e fumo. Vi uns biscoitos e me animei a levá-los também. O fusca fumegando na porta da mercearia, que se desligar o motor, ele precisa de toda retórica do mundo para funcionar de novo. Aliás, disse “à tarde” e minto. Foi de manhã. À tarde, já estaria tudo fechado.
Na infância, quando íamos passar férias na Vargem, a pátria de meu tio, conheci um senhor chamado João Minhoca. Era muito alto, muito magro, vergado ao peito fundo de sapateiro. Quase calvo e muito pálido. Tinha uns olhos muito claros, líquidos e esbugalhados. O pescoço comprido e fino mal se equilibrava no colarinho alto, e ele movia a cabeça devagar, como se temesse que ela pudesse cair. Tímido como ninguém. Só falava se lhe perguntassem algo. Não era de dar opiniões e seu riso era sempre reprimido pelos lábios quase imperceptíveis. Parecia que o riso, não sendo propriamente dele, vinha de qualquer lugar desconhecido em si, como se fosse um outro ali metido em seu corpo que risse através de João Minhoca e apesar dele. Calvo, branco como um lírio e tímido como um lírio fechado. Mas tinha um bigodão negro. Nada ali combinava com o bigodão, que parecia acrescentado por uma criança em uma fotografia antiga. Era quase de se dizer: seu João, raspe o bigode, que ele lhe torna inverossímil. Talvez o bigode tão preto e basto fosse do outro, o que tentava rir. E dele seria também sua marca de estilo. Dizia alguma coisa e emendava logo, acariciando o bigodão que lhe tapava o lábio inexistente: “Minto”. Mentia sem parar, mas o outro corrigia, na hora. “Minto…” escandia os fonemas com verdadeiro deleite, sem qualquer indício da habitual aflição em se saber ouvido. Era o outro, claro.
Mas, pois – minto também. Era de manhã.
Paguei minhas compras e recebi o troco misturado em moedas e balas. Com jeito, procurei recusar as balas. Já tenho doce de leite e cocada em casa. Comprei lá mesmo, aliás, o que torna a prática mais reprovável.
- Desculpe se te aborreço, disse. – E do balcão me veio esta:
- Não aborrece nada, quem te disse? Tá aborrecendo só agora, mas não tem problema. – e me serviu uma cachaça como trocado.

lei e graça

novembro 2, 2009

Por força de necessidade, estive um dia desses em Bragança, cidade dezenas de vezes maior que a minha. Extraordinária Bragança Paulista! com ses rues assourdissantes, mas sem nenhuma passante de fugitive beauté. Não que eu tenha visto, pelo menos, mas de fato não sou Baudelaire. Mas o que vi, cruzando uma de suas praças, compensou o aborrecimento – todos os nossos males derivam de não sabermos ficar dentro de nosso sítio e se o cavalo já foi um erro, o carro velho é o erro elevado a potências infernais – e demonstrou uma idéia, valendo como “viagem filosófica”.
Na praça, três sujeitos discutiam sobre Niemeyer. Acho que ouvi de um a palavra “comunista”. Quando passava por eles, outro respondeu: “Niemeyer foi um dos maiores arquitetos do mundo! È e será sempre imortal!”. Percebi que sua admiração pela obra do urbanista era tal que ele já se apressava em enterrá-lo, assim garantindo sua imortalidade – e não uma qualquer, dessas que duram três ou seis meses.
Parei e tentei ouvir mais, olhando o relógio da igreja, mas não consegui, por força do frenético alarido da cidade.
O relógio funcionava! E confirmei minha hipótese.

Ora, minha cidade também tem praças – duas, até – e numa delas está a igreja matriz, com um campanário. Acho que já disse aqui que, nas horas profundas da madrugada, todos os relógios param por um instante, para registrar a eternidade. Às duas e trinta e dois de uma madrugada das mais profundas, o nosso relógio parou. Parou, gostou de marcar o eterno, e ali continuou. Veio o sol e o dia e ele, ali, imóvel, como um poema ao absoluto. Não houve força secular ou eclesiástica que o fizesse retomar o trabalho antigo. Enfrentou prefeitos e padres, invicto. Sem ver o passar das horas, meus conterrâneos deixaram de ser, a todo minuto, avisados de que a morte vem e a hora corre e é incerta! Virá o julgamento de Deus e é, pois preciso cuidado com os próprios passos – e realizar boas obras. Perdida toda essa cadeia, tornamo-nos pecadores desenfreados, cegos, ululantes? Sustento que não, embora haja discordância. Algumas senhoras muito tementes julgam que “esse mundo está perdido”. Como seu mundo limita-se a cinco ou seis quarteirões, concluo que só falam de nossa localidade, e que é difícil concordar com elas: como se perder entre meia dúzia de esquinas? Eu mesmo nunca me perdi, e olha que moro a catorze quilômetros da cidade. Não vendo tanta perdição, só posso pensar que não vivemos sob a Lei, mas sob a Graça, e a Graça nos foi revelada pelo relógio que empacou.

Em São Paulo, entretanto, e malgrado o nome, parece ser outra a teologia. A Mantiqueira talvez não seja um acidente apenas geográfico – e nem será acidente, mas um muro de Deus para dividir como poderão ser salvos uns ou outros. Niemeyer, por exemplo, que o sujeito defendia quase aos berros. Realizou boas obras, excelentes até – posto que comunistas – e por isso está salvo, e alçado à vida eterna. E antecipadamente.

a idade dos heróis

outubro 30, 2009

Sally Mann

Sally Mann

Era uma dessas manhãs quase imóveis de São Paulo, em que o desenho nublado do céu parece que continuará o mesmo por todo o dia. Luzia acordou antes de mim, e quando despertei, ela estava me olhando, distraída, esfregando os olhos ainda cheios de sono. Quando me notou desperto, retesou o gesto distraído e me lembrou: tá na hora, Neto. Levanta.
Tomamos o café em silêncio com minha mãe. Nem sempre meu pai estava em casa, nem sempre ele dormia conosco. Decerto estava no quartel. Ouvíamos o rádio. Minha mãe parecia sozinha: eu e minha irmã bebíamos leite com chocolate e mastigávamos bolachas às vezes nos entreolhando mas ela parecia olhar longe, longe, talvez entretida com o rádio. Depois que me vesti, penteou-me como meu pai a havia ensinado… mas precisava de um algum esforço de atenção para repetir aquele traçado de pente tão preciso, que nele era natural. Luzia se penteava sozinha. Parecia que às vezes ela se distraía no espelho, talvez vendo, talvez buscando algo a que mal soubesse dar o nome.

 

Havia um pessoal da noite. Eu sabia apenas vagamente que eles tinham uma relação conosco, mas sempre estavam ali, todas as noites, em dois carros, pois nossa casa era de esquina. Do canto das janelas, era possível vê-los. Eram: o reflexo da garoa no metal e no vidro dos automóveis e: sombras que às vezes fumavam e bebiam café de garrafa e também: conversas sem som, cortadas de viés pela veneziana.
Mas já tinham ido e Augusto havia chegado, com a manhã. Eu e Luzia reconhecemos o som do motor do fusca, e também minha mãe, tanto que nem precisou dizer para que nos apressássemos… apenas estendeu a mão sobre as chaves da casa.
Quando saímos, passei pelo jardim sem me permitir aquele único instante de sempre, pois o jardim era interdito a nós, meninos – instante de perfume e cor e mistério e luz e sombra – atento apenas a que não era só Inácio, mas um outro, desconhecido, no carro, e que ambos desceram e esperaram que sentássemos no banco de trás da joaninha, enquanto falavam algo a minha mãe, coisa bastante irregular. Ele passara por nós quase sem nos cumprimentar, e o desconhecido trazia ao ombro o que conhecíamos apenas como metralhadora, um objeto quase trivial como uma tesoura ou um cortador de grama. Mas que normalmente ficava dentro do carro, entre o banco do motorista e o câmbio… Voltaram.
Augusto agora era o de sempre: – Tudo bem, Neto? Tudo bem, Luzia? Vocês estão com cara de sono, hein? Não estão com vontade de estudar, não é?… – sorrimos…a gente se revezava no privilégio de responder a ele. – O que é que vocês vão aprender hoje? – sorrindo para nós aquele sorriso franco e baiano pelo retrovisor, às vezes nos voltando o rosto. Como Augusto conhecia a escola! Mal imaginávamos que fosse previsível o tema das aulas, mas sua experiência era muito maior… – Não sei….- disse ela, talvez com palavras, talvez com um sorriso. O outro fumava, sem dizer nada. Talvez chovesse. – Luzia! Viu, Neto?! O meu Corinthians perdeu de novo, de novo!! Ah, ontem eu quase chorei por causa disso- e deu uma gargalhada… – ele era corinthiano, e como tal, sofredor. Havia nascido na casta dos corinthianos, e caladamente agradecíamos por pertencer a uma outra. Era sofredor, e nada havia que pudesse ser feito. Mas ria do próprio sofrimento, enquanto o outro, que não devia ser corinthiano, não era capaz sequer de rir dos outros, quanto mais de si mesmo. Falaram alguma coisa incompreensível, entre eles… Augusto tinha sua própria metralhadora no lugar de sempre, e o outro, não largava da dele. Era bem mais jovem, e isso me parecia um demérito. Por que o dia estava estranho? Fizemos caminho diferente, mas ele explicou que assim chegaríamos mais rápido à escola: menino precisa estudar viu? – sorrindo com maus dentes sob um bigode falho e um olhar brilhante.

Quando fomos nos aproximando do Grupo Escolar, havia outro carro de polícia diante dos portões fechados, e várias pessoas na calçada. Augusto: – Vixe, que confusão é essa?… será que é feriado? Nossa, vai ver que é feriado e esqueceram de avisar?!… – senti um princípio de euforia. Luzia, não, embora sorrisse com canto de boca.
Ela era bem mais velha que eu: dois anos. Chegaria meu momento, e em menos tempo do que eu poderia supor, e seria tão intenso quanto aquela composta tensão de boa menina deixava transparecer, num olhar sempre tão fresco, sempre tão pesado. Minha irmã vivia vésperas. E ontens. Tinha os lápis apontados, os cadernos alinhados como o cabelo de um filho de militar, as lições feitas sempre a tempo. Eu às vezes me esquecia, olhando o jardim por entre as grades, ou assistindo televisão, e tinha que fazer minhas tarefas às pressas. Era meu primeiro ano na escola, mas eu já sentia, e desde antes, algo que agora via em minha irmã, e não sabia nomear.
Havia mais um carro, da polícia civil, só agora reparávamos. Algumas pessoas começavam a se afastar. Talvez chovesse. O pequeno jardim da casa amarela, como sempre, me parecia encantador. Augusto retornou, sorrindo. – Luzia, Neto… eu vou contar uma coisa muito, mas muito chata mesmo pra vocês… mas paciência, que é a vida é dura mesmo… – antes que eu entendesse, ele disse: – Hoje não tem aula!!! – e sorriu. O outro riu dele, mas mal notamos, de alegria.
À tarde, meu pai apareceu, sem falar conosco, e disse algo a minha mãe. Ela fez bolinhos de arroz para nós e disse que talvez precisássemos mudar de escola.